Descontinuidade. Nascemos nesse instante. Arremeçados ao trem bala.Chorei muito até conseguir andar.
Demorei a andar. Uma lesma de carga no deserto. Movido à gula de curiosidade. Cegueta total.
Com uns cinco anos meu pai me carregava. E eu carregava a bola.
Mas acertava um gol a cada dez chutes. Eu era a mais nova desilusão da década de 90.
Montava Lego o dia inteiro. Eis o primeiro manifesto de vício.
Só parava pra apanhar, ver ThunderCats, Caverna do Dragão e comer bolo de cenoura.
Já quando moleque o negócio era matar passarinho. Revólver de bereta. Dei milhares de tiros. E um dia matei um! Mas senti estranho com aquele sangue todo... Então me convenci que ele já estava morto.
Ao ponto de juntar uma quinzena, o mundo era meu. Seu mundo era meu.
Sim, o seu mundo era meu. Tinha um reinado onde não havia vassalos nem empregados. Apenas o bobo da corte e um frango sobre a mesa. Um mundo cheio de música e sem guerras.
Eu dava risadas todos os dias. Até das mesmas piadas.
Hehe, era muito bom.
Mas um dia o frango acabou. A música parou. E a guerra começou.
O povo que não havia me elegido revoltou.
Fui ao inferno. E quando voltei não era mais rei.
"Moh Deuuss!"
E nem foi Deus.
Uma menina que me salvou.
Mas ela nem sabe que salvou.
Foi aí onde descobri que eu era um animal projetado para o único pilar da sobrevivência humana. Instinto, obsessão e fixação: "Mulher, tu és um vício."
Orbitar nesse mundo é bem prazeroso. Tão bom que passei a duvidar.
Existe mesmo essa vida?
Ou inventei pra me distrair?
Fiquei incomodado. Perturbado, inquieto durante anos.
Não achava respostas.
"Não é isso."
"Não é isso."
"Não é isso."
...
Até que um dia, depois de ter virado a noite, avistei no céu um balão azul e amarelo.
Pensei: "..a pessoa que está lá em cima, é a pessoa mais feliz do mundo"
Terei um daqui dez anos. Espero.
O sol estará lá em baixo.
Lá de cima verei tudo. Absolutamente tudo.
Abraçarei o mundo feliz demais para um fim de jogo.